Figuras representativas
Luis Fernando Verissimo
Estive pesquisando as origens da música sertaneja e conclui que seu início remonta aos tempos medievais e renascentistas. Sim, no medievo, muitas das formas musicais hoje utilizadas no nosso meio rural já eram ouvidas. Num outro contexto, é verdade, mas com evidente precursoriedade. O mesmo se pode dizer dos tempos elizabetanos. Poucos sabem, por exemplo, que William Shakespeare escreveu a primeira versão de Romeu e Julieta como uma trova gauchesca, o que é estranho pois na época elizabetana não havia gaúchos, salvo um ou outro turista, claro. Na conhecida cena do balcão, Julieta cantava: “Ó Romeu, ó Romeuzinho, sobe aqui devagarinho. A roseira te aguenta mas cuidado com os espinhos. O meu peito arrebenta, pensando no teu carinho. Nosso caso não é mol – eu sou a Lua e tu é o Sol”. E Romeu respondia: “Eu sou o Sol e tu é a Lua, minha paixão é igual à tua. Vou subir nesse balcão, o que que eu faço aqui na rua? Já vou tirando o calção e quero te ver toda nua. Eta nóis, que apocalipse: tu e eu fazendo eclipse!”.
Durante minhas pesquisas, gravei interessantes depoimentos de figuras representativas do meio, como este de Argemira das Dores, também chamada Argemira dos Dois:
"Eu sou a mulher da dupla Pixuim e Xoque Xoque. Dos dois, sim senhor. É que ninguém sabe quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, entende? Nem eles sabem mais. Assim fica mais prático ser a mulher dos dois. Entendeu? Não tem problema eu ser casada com o Pixuim e o Xoque Xoque porque, como nem eles sabem quem é o Pixuim e quem é o Xoque Xoque, um não se sente traído quando eu estou com o outro, entendeu? Porque ninguém sabe quem está sendo enganado. Agora se cada um tivesse uma mulher, aí sim ia ficar complicado, porque se o Pixuim não sabe qual dos dois ele é, como é que ele ia saber que a mulher do Xoque Xoque na verdade não era a dele, e vice-versa? Assim fica mais fácil. Mas as pessoas amaliciam muito."
Também entrevistei o Nababo, da dupla Nababo e Triliardário. Ele me recebeu na beira de uma piscina, que me apresentou.
"Esta é a minha piscina. Lá para trás ficam as minhas canchas de tênis, depois o campo de futebol, depois o bosque que vai até aquela montanha, que também é minha. Isto aqui na cidade, porque na minha casa de campo tem muito mais coisa. Como você vê, a piscina tem o formato de uma viola. Tudo que eu tenho tem o formato de uma viola, porque eu devo tudo que tenho à viola. Você já conheceu minha mulher? Vem cá, Vanusete! Viu só? Ela também tem formato de viola. Não é uma beleza? O mais difícil de encontrar foi o pescoço comprido. Minhas casas têm formato de viola, minha pick-ups, minhas amantes. Tudo que é meu tem formato de viola. Menos a minha viola, que tem formato de bumerangue".
Futebol de praia
- Como é, sai um joguinho? - Vamlá. - Com camisa contra sem camisa. - Peraí. Ninguém tá com camisa. - Casado contra solteiro. Quem é casado? - Eu. - Eu. - Eu estou vivendo com uma... - Vivendo com não vale. Casado é de papel passado. - Tem que ser no religioso? Eu só casei no civil. - Não precisa ser no religioso. - Divorciado é casado ou solteiro? - Solteiro. - Mas se o divórcio ainda não... - Então, tecnicamente, casado. - Sei não, sei não... - Está bem. Esquece casados contra solteiros. Velho contra moço. Quem tem mais de 40 forma um time e... - Ah é? Barbada pros mais moços. - Fumante contra não fumante. - Pior. Fumante não aguenta meia hora de jogo. - Esquerda contra direita? - Dá rolo. E, mesmo, como definir esquerda e direita hoje em dia? De acordo com... - Está bem, esquece. Católico contra protestante. - E quem for judeu? Islamita? Budista? Da umbanda? - Quem já foi assaltado contra quem nunca foi assaltado. - Analisados contra não-analisados. - Quem gosta de cebola contra quem não gosta. - Luana Piovani contra Daniela Cicarelli!
Domingo, 2 de novembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.